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Terça-feira, Março 29, 2005 Há um tempo atrás comecei a escrever sobre Rosa. Mas larguei o texto no começo, sei lá por quê. Hoje retomo Rosa pois nunca fora tão presente o assunto da relação patrão-empregado, o superior e o subalterno.
Rosa trabalha aqui há mais de 8 anos e não entendo a paciência de minha mãe ao lidar com ela, e nem a dela ao lidar com minha mãe. São 8 anos de tolerânia mútua de humores, de silêncios, de ironias, piadas, sem excluir, claro, os dias em que ambas estão em perfeita harmonia - ou que, pelo menos, parecem estar. A conversa em que coloquei Rosa era entre eu, minha irmã e minha prima. Cada uma falava da convivência com as suas. Minha irmã falava da sua "recém-admitida" Elena e minha prima da sua Margarete - perdoem-me elas se não escrevi seus nomes corretamente. Eu, no caso, ao falar de Rosa, não me incluo como patroa, mas como filha da patroa, que por muitas vezes acorda ao som do diálogo entre minha mãe e a sua. Vejo muito minha mãe reclamar de ingratidão. Rosa não costuma limpar as venezianas das portas, Rosa chega tarde e sai cedo, Rosa não bebe suco disso e daquilo. Minha mãe, fora o salário, lhe dá frutas e pães nos fins de semana, já lhe fez empréstimo em banco, já ajudou a construir sua atual morada. Rosa, hoje, limpou a casa e foi embora. Um tempo atrás, mamãe decidiu: não quero mais Rosa aqui. Não está mais valendo a pena. E ao falar isso pra ela, Rosa se mostrou inquietada, até, pra impressionar, passou a cumprir direitinho seus horários e tarefas. Em dias posteriores, com voz desconcertada, chegou a me perguntar se o que minha mãe falava era sério. (Oh, Cristo! Logo eu, justo eu! Ai, ai, ai! Meu coração é fraco nessas horas...) E com voz mais atribulada, balbuciei um "sim". Dizem as patroas, que não é bom dar muita comodidade às suas amas. Elas tiram proveito, abusam da boa-vontade, e ainda lhe retribuem com cara amarrada e serviços mal feitos. Mas pensem bem, será que é prazeroso viver um cotidiano alheio, a repetição dos dias, deixar os próprios filhos sei lá com quem, e agüentar bronca de patroa no pé do ouvido? Será que é atrativa essa vidinha de merda? Eu, como uma nem patroa e nem empregada que sou, não desejo ainda nenhum dos papéis. Quase me assusta essa tarefa de "domesticar" um ser humano, com a infindável variação de temperamentos que ele tem. E nem tão cedo quero fazer a cara de que "deu o braço a torcer", lá pela quinta vez, quando vieram me pedir pra sair mais cedo. A honra das domésticas, já me disseram, é a de conseguirem enrolar trabalho, o único prazerzinho que têm nesse desprazer de vida alheia. Sabe-se lá por que alguns se acostumam com a condição em que estão, e ficam por isso mesmo, bebendo essa anulação(alienação) diária. Sabe-se lá por que os fodidos não fazem uma revolução. Sabe-se que continuam aí, Rosa, Elena e Margarete, servindo às suas "donas". "Donas" que, mesmo dispensando cerimônias, levam esse vocativo grudado no nome. De baixo do mesmo teto, amas e donas, até que o dinheiro as separe. ebulições ( ) Quarta-feira, Março 16, 2005 Ao passar a roleta, ela escolhe, entre dois lugares disponíveis, o que estava no lado da sombra. Ao seu lado, havia um rapaz que pareceu meio desconsertado ao notar que ela iria sentar-se ali. Ele meio que se remexeu na cadeira, como se fosse levantar-se. Ela, notando que ele parecia ter desistido, recompõe-se, sentando-se de frente sem dar mais passagem para a suposta saída dele. De repente, o rapaz é atacado por uma moça, que estava sentada atrás, com um abraço e beijos no pescoço, quase o enforcando de posse. Era bem essa a calma de que ele precisava.
ebulições ( ) Terça-feira, Março 08, 2005 Se tivesse a imagem, com certeza, ela diria mais que minhas palavras. Estávamos no carro, paradas em um sinal vermelho, e minha irmã pede pra que eu olhe pro lado esquerdo. Era uma menininha, pelos seus 7 anos, pele e cabelos escuros, feição nem triste nem alegre, absorta, olhando pro nada, chupando o dedo, na janela do ônibus. Nem dava pra ver por onde segurava, mas, de rosto colado ao seu, estava uma bonequinha, um bebezinho carequinha e sem roupa, desses de plástico que existem comumente, ou mesmo que caracterizam os momentos lúdicos de muitas menininhas pobres. A bonequinha, no entanto, tinha um quê de incomum. Era negra. E aquele contato de rostos me foi tão fotográfico, que a minha menção à cena é mínima diante da sensação de vê-la. Não sei dizer qual das duas era a boneca da outra...
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